A equipe do Jornal Público foi até a Mata do Ronca visitar Genivaldo Bazilio. Agente cultural de reconhecido trabalho nas comunidades do Alto da Bondade, Passarinho, Alto do Sol Nascente e por que não falar em toda a cidade do Recife.
Na conversa, Genivaldo falou um pouco sobre a relação entre cultura popular e cultura de massas, liberdade de expressão e de imprensa, e ainda falou sobre a importância de ter um Jornal Comunitário no Bairro. A entrevista foi publicada parcialmente na edição nº 001 do Jornal Público, e aqui você confere na integra.
JP: O que você acha da conjuntura cultural dessa região do Alto da Bondade
e de Passarinho?
GB: A gente passou por um momento
assim de ebulição, de muita coisa acontecendo em termo da questão cultural. Me
parece que a gente viveu um momento em que se depositou uma esperança muito
grande de transformação nas iniciativas culturais no entanto esbarrou um pouco na falta de estrutura, de
apoio mesmo de políticas publicas, da própria compreensão dos moradores em
relação à cultura e a intervenção da cultura de massas, da mídia que vai no
sentido de destruir um pouco essas iniciativas.
Hoje eu acho que há uma busca de
reorganização ainda que oprimida por esse processo, mas com bastante força e é
um momento talvez, de se estudar essas possibilidades de se compreender mais
como é que ela acontece em face dessa barreira enorme que a gente tem, tanto da
falta de estrutura quanto da falta de política governamental como da ação
massiva dos veículos de massa, da industria da cultura tentando fazer cada vez
mais da cultura popular uma mercadoria, desconsiderando o conteúdo pedagógico,
politico, o conteúdo que leva as pessoas a se organizarem, conviverem e se
confraternizar. Deixando isso de lado e procurando inserir no meio dos artistas,
dos grupos populares, apenas aquele lado exótico e aquele lado que visualiza o
lucro. Então é uma luta muito forte. A juventude está aí lidando com isso,
alguns grupos tem isso consciente, mas eu acho que a maioria dos grupos não
tem, eles vão fazendo a releitura vão se organizando mas não tem a consciência
dessa lacuna entre a necessidade da identidade cultural e também o apelo pra
questão do lucro em cima da cultura, mas vejo que é um momento muito bom por
isso, porque está se percebendo em algum momento que essa luta depende muito de
se organizar e de resistir pra que a cultura de cada bairro, pra que a cultura
local continue sendo uma forma da juventude se identificar fazer seu lazer,
estabelecer sua convivência, construir novos caminhos. Aqui no Alto da Bondade
não é diferente, lá em Passarinho eu
percebo que não é diferente, os grupos estão um pouco, enfrentando essa
dificuldade mas o bom é que a gente vê que há sempre o foco de resistência,
existem sempre aqueles grupos que não desistem, alguns até fazendo uma leitura
ainda dentro da visão mercantilista mas assim, meio cismado, que tem que achar
um caminho mesmo pra resistir, tem um movimento aqui de samba que é
interessante, está um pouco atrelado ao samba, ao pagode ainda que tem uma
interpretação meio vulgarizado em determinados temas, mas aí por dentro surgem
aqueles focos de resistência e de discussão. Eu tenho visto, tenho acompanhado,
conheço alguns garotos desses que estão pensando e vão certamente dar sua
contribuição. O pessoal do rock que está mais fraco. O pessoal do rap, eu acho
que tem uma ou outra pessoa aí que é do bairro mas está mais ligada ao
movimento de fora porque aqui é muito fraco.
Eu acho que a conjuntura atual é
a conjuntura do estudar o que está sendo feito, e das pessoas que estão
percebendo essa contradição entre o mercantil e a cultura realmente de
resistência podendo estar contribuindo para impulsionar esse movimento pra um
espaço mais seguro, menos influenciável por esse lado aí que desmancha a
possibilidade de uma organização melhor. Eu acho que está indo nesse caminho,
pelo que eu tenho acompanhado, tenho buscado contribuir da maneira que é
possível, e é pouco possível, porque os instrumentos de opressão e de
divulgação da cultura de massa e da industria da cultura ele é muito forte, é
muito grande, entra na casa das pessoas todos os dias, por dentro das escolas,
através inclusive dos educadores que não percebem o seu papel de desfazer isso
aí e dão continuidade, mas acho que a gente tá vivendo um momento bom pra estar
estudando, instrumentalizando essa galera desse debate.
JP: Qual é a importância de um veiculo de comunicação para as expressões
culturais?
GB: Atualmente se fala muito na
questão da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão, no entanto, é
dentro de um cenário em que nove famílias são proprietárias dos meios de
comunicação mais forte do país. Então falar em liberdade de expressão e de
imprensa nesse contexto, é dizer que se vai dar liberdade a esse grupo para dar
o enfoque da noticia ou da informação que lhe interessa.
Quando a gente pensa nas
iniciativas populares, na imprensa que eu chamo de imprensa alternativa que é
essa que é feita pela rapaziada, pela garotada, pelas pessoas que estão na
comunidade, que vê que precisam participar desse espaço que também é um espaço
de disputa, é extremamente importante que a comunidade através de seus próprios
agentes, crie a sua liberdade de expressão, a sua liberdade de imprensa. E isso
não vai se dá através dos meios de comunicação dessas nove famílias que estão
ligadas às mais ricas do país, não vai ligar, por exemplo, a família de Roberto
Marinho que é a mais rica do Brasil, a maior fortuna do país. O seu enfoque a
qualquer noticia, informação, será o enfoque dos mais ricos.
O surgimento do jornal na
comunidade, feito por seus próprios agentes, pelos seus próprios moradores,
tendo as noticias que ali circulam, tendo o enfoque dali, é a garantia de se
concretizar essa discussão que se está fazendo no país de liberdade de
expressão e de liberdade de imprensa. Sem isso é balela. É liberdade de
imprensa tal qual a liberdade de uma raposa pra viver dentro do galinheiro.
Nove famílias que dão o enfoque do que querem.
Posso até rapidamente dá um
exemplo...
Nesse movimento que teve aqui do
ocupe o Estelita, no Cais José Estelita, o Consorcio Novo Recife que é o
conglomerado de empresários, inclusive que tem o poder publico, pelo que a
gente vê, a seu favor, ele fez um contrato com a Globo, de cinco milhões de
reais para realizar publicidades logicamente a favor de seus interesses, e a
gente viu algumas dessas publicidades sendo veiculadas. No dia da desocupação,
a Rede Globo veiculou uma matéria que dizia que após ser retirados os
ocupantes, foram encontradas várias armas. Agora na imagem tinha foice, pá,
inchada, vassoura... Quer dizer, isso eram coisas utilizadas para fazer os
locais de ocupação, e uma área que eles resolveram fazer uma horta comunitária.
Então você vê qual é o enfoque que a burguesia dá quando ela quer, e se a gente
não tem um veiculo pra contradizer, pra dar a informação correta, não existe a
liberdade de expressão, nem de liberdade de imprensa.
JP: E dentro do contexto mais “micro”, já que você falou num contexto mais
geral. Quem se beneficia no bairro com esse meio de comunicação?
GB: Num contexto “mais micro”, o
que a gente poderia te dar como exemplo é que hoje a gente anda todo o Alto da
Bondade, a gente anda em Passarinho e eu vou ampliar até mais, em Caixa D’água
e agente tá constantemente pulando lixo. Altas barreiras de lixo... E a
comunidade se sente impotente de levar se quer à outra rua essa noticia. Quem
mora numa rua acha que é só a rua dele. Você conversa com as pessoas “-Ah essa
rua aí as pessoas são irresponsáveis”, acaba trazendo para si a
responsabilidade de um serviço que não está sendo prestado.
Um jornal no bairro, circulando
dentro do bairro, faz com que essa noticia desfaça essa história de que “É
minha rua” de que “Sou eu”, evidente que há necessidade da população
contribuir, colaborar, mas quando você vê várias ruas de vários bairros entupidas
de lixo, por que você anda e algumas pessoas não andam e não presta a atenção,
você não pode atribuir a culpa diretamente ao apenas ao morador. E aí, um
veiculo interno pode socializar esse acontecimento.
Outro exemplo, nós estamos
realizando um projeto lá na Escola Marluce Santiago [na Vila Nossa Senhora da
Conceição], é um projeto onde a gente está com uma garotada tentando conhecer
as coisas do bairro. Hoje eu trabalho num universo de trinta meninos em duas
turmas. Desses trinta meninos, depois de ter passeado em algumas coisas do
bairro, alguns poucos sabiam de coisas muito simples que existem no bairro,
acontecimentos muito simples, como que existe um grupo de mulheres de
Passarinho se organizando, que existe esse grupo de samba se organizando, que
existe um rio onde as pessoas, onde ainda mesmo morrendo rio as pessoas ainda
têm várias práticas lá, como a colocação de oferendas das pessoas do candomblé,
como encontro de pessoas para piquenique que esse rio está sendo desmatado...
Por que isso só vai passar para as pessoas com um veiculo que esteja preocupado
ali localizado. Se não isso fica como se
não existisse engolido pelas coisas que a gente trouxe num primeiro momento.
